vida de cão.
morte de quê?Arquivo para Em prosa.
O que buscamos, o que seguimos.
Cada dia que passa temos mais certeza de que somos movidos por sonhos.
Esses sonhos são nossos motores. Seja profissional, fraternal ou amoroso.
Nossos motores rodam com engrenagens que, nem sempre, estão bem lubrificadas,
mas nossa determinação para “chegar lá” faz com que elas tornem-se harmônicas.
Eu tenho sonhos e os busco. Eu tenho garra o suficiente para realizá-los.
Eu luto por eles até o final, até suas realizações, até poder vivê-los.
Porém, há uma coisa que não se pode fazer: relaxar.
Os melhores motores são os incompletos; os que, a cada dia, fazemos um ajuste.
Eu tenho sonhos que não realizei, embora os viva.
Porque completar um ciclo de um sonho não nos faz completos.
Eu os alimento. Eu os aumento. Eu os faço maiores cada vez que chego mais perto do final.
É assim que sigo minha vida.
O pingüim tirou o casaco de lã e está de volta ao gelo.
O pingüim está feliz, mas isso não basta. Ele quer mais.
Porque o sonho que não se realiza fica maior, mais gostoso, mais intenso.
Porque meu motor ainda tem muito a ser ajustado.
Se a completude que sinto hoje desse-me por satisfeito, não teria razões pra seguir em frente.
Portanto, mesmo que já tenha chegado onde queria, não é mais aqui que quero estar.
Eu quero mais. Eu não quero que meu sonho se realize e só.
Eu o aumento, busco e renovo.
Faça como eu: lute até o fim, mas não deixe que o fim chegue.
Tenha fé, tenha garra e determinação.
Nenhum sonho é grande demais pra ser alcançado.
E o mais importante: não saiba seus porquês, ou estará fadado ao fracasso.
Portas.
Era noite. Eu caminhava numa ruazinha estreita de calçamento com subidas e descidas intermináveis.
Não havia ninguém por perto, salvo um cachorro que decidira me acompanhar e que me olhava com cara de “te anima, rapaz” sempre que decidia descansar um pouco.
Quando, numa dessas descidas, já estava quase choroso, vi você.
Na porta da sua casa, cor de rosa, sentada, quase ofuscada pela turba que estava na sala, corredor, cozinha e quartos.
Você não me parecia feliz.
Tinha um cigarro na mão direita e uma dose de rum puro na mão esquerda e o olhar distante.
Percebi ali a oportunidade de saber o que a longa caminhada fizera de mim.
Cheguei, sentei e suspirei. Mal conseguia respirar. Tamanhos o cansaço e o deslumbre.
Tive sorte de ter pegado a rua errada. A rua da sua casa.
Passaram-se cinco, 10 minutos até que consegui dizer a primeira palavra: oi.
Bastou. Você me ouviu, sorriu, abriu a porta e convidou a entrar. Entrei.
Lá dentro, embora tenha encontrado um ou dois conhecidos, ainda me sentia estranho.
Encontrei um cantinho pra mim. Juntei gente. Afastei outras. Mas você me olhava.
Fui percebendo que a horda de bárbaros que me cercava fora dali — e muitas vezes eu acompanhava — não me fazia mais sentido.
Vou ficando. Até quando der.
Você faz questão de deixar a porta aberta. Eu não quero sair.
Resta saber se você aceita que eu amarre meu burro aqui ou quer que eu procure outra estância.
O motor do mundo.
Quanto mais vivemos ou sobrevivmemos percebemos que as coisas mudam.
As sombras dos prédios mudam de lugar durante o ano. Os ventos mudam, a força das ondas, a maré sobe e desce umas quatro vezes por dia, as luzes da cidade mudam e mudam, até, as paisagens das cidades que não tinham luz. Isso a gente percebe.
O que gente não percebe, ou custa a perceber, é o quanto mudamos em certas situações.
Nossas atitudes, ações, comentários, posições, argumentos, palavras, gestos, atenções. Tudo isso passa desapercebido durante alguns meses, talvez anos.
O fato é que o motor do mundo funciona com esse combustível misterioso, que se chama amor… o amor gratuito, puro e verdadeiro. O amor pela vida. E é ele quem nos faz mudar. Que venha de fora pra dentro. Nós somos o tanque desse combustível, basta mandar pro motor e tudo fica bem.
O mais importante é não temer.
Sem desespero ou sofrimento, temos de lembrar que tudo passa, até uva passa.
E se é pra lembrar de alguma coisa, lembremos que tudo tem seu lado positivo.
Montanha-russa.
Lá em cima, perto do céu, a gente não tem mais o que temer.
Carpe Diem.
O pior já deve ter passado. Você entrou no carrinho e embarcou na viagem.
Carpe Diem.
Daqui pra frente, subidas e descidas. Gritos e sorrisos. Suspiros e sussurros.
Carpe Diem.
Próxima parada? A saída. Pra, quem sabe, começar tudo de novo.
Carpem Vitae.
Sonho.

Outro dia, numa tarde, eu estava deitado no chão gelado, no batente de granito à porta de casa, olhando as plantas que faziam movimentos engraçados, comandados pelo ventinho frio que trazia a chuva que ia cair à noite. Até tive vontade de ir lá, brincar com a palmeira, mas deixei pra lá e fechei os olhos.
Tinha visitas em casa. Estavam na varanda, todas rindo, comentando sobre quem se graduou, quem tomou calote, quem está doente e isso e aquilo que visitas de família sempre fazem. De vez em quando vinha uma gargalhada. Eu saía do meu cochilinho gostoso, levantava a cabeça e ficava irritado. Cada vez que isso acontecia, pensava que aquelas pessoas eram infelizes e lembrava-me do filet ao molho madeira com purê de batatas que estou preparando.
Quando pensei no filet, até ronquei. Nossa, que soninho bom. Vou te contar, viu!? Melhor ainda era o sonho.
Sonhei que viajava pelo mundo. Que corria pela praia sem ondas do Mar do Caribe, que rolava na areia como uma criança ou um jovem apaixonado. Até brincava com peixes! Tudo era lindo. Tudo era maravilhoso. É como dizem: quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza.
Naquele sonho eu realizei outro: comi o filet. Minha Nossa Lessie do Perpétuo Socorro! O que era aquilo?! Foi como andar nas nuvens.
Aí, a campainha tocou e eu acordei.