vida de cão.

morte de quê?

Arquivo paramedo

Portas.

Era noite. Eu caminhava numa ruazinha estreita de calçamento com subidas e descidas intermináveis.
Não havia ninguém por perto, salvo um cachorro que decidira me acompanhar e que me olhava com cara de “te anima, rapaz” sempre que decidia descansar um pouco.
Quando, numa dessas descidas, já estava quase choroso, vi você.
Na porta da sua casa, cor de rosa, sentada, quase ofuscada pela turba que estava na sala, corredor, cozinha e quartos.
Você não me parecia feliz.
Tinha um cigarro na mão direita e uma dose de rum puro na mão esquerda e o olhar distante.
Percebi ali a oportunidade de saber o que a longa caminhada fizera de mim.
Cheguei, sentei e suspirei. Mal conseguia respirar. Tamanhos o cansaço e o deslumbre.

Tive sorte de ter pegado a rua errada. A rua da sua casa.
Passaram-se cinco, 10 minutos até que consegui dizer a primeira palavra: oi.
Bastou. Você me ouviu, sorriu, abriu a porta e convidou a entrar. Entrei.
Lá dentro, embora tenha encontrado um ou dois conhecidos, ainda me sentia estranho.
Encontrei um cantinho pra mim. Juntei gente. Afastei outras. Mas você me olhava.
Fui percebendo que a horda de bárbaros que me cercava fora dali — e muitas vezes eu acompanhava — não me fazia mais sentido.
Vou ficando. Até quando der.

Você faz questão de deixar a porta aberta. Eu não quero sair.
Resta saber se você aceita que eu amarre meu burro aqui ou quer que eu procure outra estância.

Correndo pela casa.

Cada cômodo que entro,
cada chinelo que encontro,
cada brinquedo que mordo,
cada intruso que abordo.

Cada pessoa que vejo,
cada canto que cheiro,
cada prato que como,
cada sonho que sonho.

Tudo que vejo,
tudo que cheiro,
tudo que como,
tudo que sonho.

Tudo em que entro,
tudo o que encontro,
tudo o que mordo,
tudo que abordo.

Cada um de tudo que.
Nada parece meu.
Talvez porquê nada seja.

Fugindo.

Eu sou como um pit bull.
Mais temido que perigoso.
O que mais quero é brincar.
Mas não me deixam.

Com a vida a gente percebe.
Não é por querer,
mas o tempo nos persegue.
Para quê?

Tanto faz saber ou não.
Tanfo faz. Deixa pra lá.
As coisas se ajeitam.

E o que vem de lá pra cá?
Tanto faz. Deixa que venham.
Que sejamos adultos, então.

Montanha-russa.

Lá em cima, perto do céu, a gente não tem mais o que temer.

Carpe Diem.

O pior já deve ter passado. Você entrou no carrinho e embarcou na viagem.

Carpe Diem.

Daqui pra frente, subidas e descidas. Gritos e sorrisos. Suspiros e sussurros.

Carpe Diem.

Próxima parada? A saída. Pra, quem sabe, começar tudo de novo.

Carpem Vitae.

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